Uma
coleção de surpresas
Já se falou no
teatro físico, no teatro de texto, no teatro performático. Pois a
passagem de Patrick Lowie por Porto Alegre, com duas temporadas do
espetáculo "O Trampolim", apresentou o que podemos batizar de teatro de
surpresas.
A primeira temporada, em março e abril, no palco do Bruno Kiefer,
trazia como principal surpresa o método de trabalho do diretor belga.
Como já acontecera quando encenou no norte da África e na França, Lowie
colocou em cena atores principiantes, recrutados nos próprios locais
das apresentações. É uma opção de risco. Ao mesmo tempo em que ele
conta com atores mais disponíveis e disciplinados, o espetáculo se
expõe ao risco de se ressentir da falta de experiência do elenco. A
primeira temporada de "O Trampolim" ousou este salto e o resultado foi
irregular.
A montagem trazia o texto denso e teatral de volta para a cena de Porto
Alegre, optando por uma encenação despojada e criativa, especialmente
na iluminação e trilha sonora. Mas a escalação dos atores acabava por
dar a impressão de que havia dois espetáculos convivendo no mesmo
palco: um vacilante e esforçado, protagonizado por Leonardo Wolfarth e
Fabiano Garcia, outro ambicioso e provocador, estrelado por Anderson
Simões e Vinicius Brenner.
O segundo "Trampolim", em cartaz durante agosto no mesmo Bruno Kiefer,
calibrou melhor o salto, se tornou um único espetáculo. Lowie manteve
Brenner, agora com o reforço de Léo Oliveira e, especialmente, de Zé
Alessandro. Nesta remontagem, o diretor e autor de "O Trampolim"
surpreendeu mais uma vez. Ao contrário dos criadores gaúchos, que
relutam em alterar e aperfeiçoar seus espetáculos, Lowie pareceu ter a
exata compreensão de que teatro também se faz a partir das alternativas
trazidas pelos atores. Alterado o elenco, alterou-se o espetáculo, e
para melhor. Lowie soube perceber o que de melhor pode tirar de seu
novo elenco, e investiu nisso.
Só assim para explicar a cena em que Alessandro e Brenner incorporam
animais selvagens para sintetizar em gestos a agressividade que media a
aproximação entre dois homens. Só assim para entender que a carga
dramática de perda e paixão sem freios, característica da primeira
encenação, se potencializou na remontagem. A única baixa foi a
eliminação de uma cena em que Lowie invadia o palco, confundindo o
público, desmascarando a estrutura do próprio espetáculo.
Com essa coleção de surpresas, oferecidas em duas doses, "O Trampolim"
pode ter ajudado o teatro de Porto Alegre a se repensar, a olhar com
atenção para outros tipos de olhares e linguagens. E reafirmou o
talento de Brenner, pronto para saltos maiores.
RENATO MENDONÇA/ZERO HORA